- amo-te. insistiu ele
- eu não. respondeu ela.
- e se nos voltarmos a encontrar? perguntou ele.
- eclipses, nada mais. respondeu a lua ao sol.
Jorge Serafim
domingo, abril 16, 2006
sábado, abril 15, 2006
Espíritos de vento
Corre mundo fora
leva contigo minha mágoa,
minha dor de não ser mais que isto...
Por perder, por sofrer desta dor de ausência...
Bates nos rostos ausentes,
forças lágrimas nos poentes.
És eterno, belo e efémero.
Percorres o mundo tanslucente
e cortas almas decadentes.
Às vezes quando menos esperamos
vais-te... fica o silêncio.
E nós, na nossa inocência,
esperamos que voltes,
que tornes a contar-nos histórias
e memórias de sítios distantes.
Mas não vens...
Uma estranha calma envolve-nos e sentimo-nos perdidos,
feridos por algo que nos falta!
É assim que somos...
Queixamo-nos
quando tornas a nossa vida turbulenta...
quando sopras de todas as direcções
e varres emoções!
Mas quando te vais e fica o vazio...
somos velas sem pavio!
E não sabemos o que fazer.
É esta a natureza humana. Nunca estar satisfeito!
Não querer o imprevisto mas odiar o perfeito.
Para onde caminhamos?!
Errantes vagabundos vida fora.
Não somos mais que ventos inconstantes,
tormentas surpreendentes que nos fustigam.
Quanto a mim...
basta-me que me batas no rosto
como uma lâmina....
Me roubes uma lágrima tantas vezes contida...
Me contes histórias de tempos idos...
Porque tu percorres o mundo,
invades almas,
vais ao fundo, e, voltas sempre...
como eu...
leva contigo minha mágoa,
minha dor de não ser mais que isto...
Por perder, por sofrer desta dor de ausência...
Bates nos rostos ausentes,
forças lágrimas nos poentes.
És eterno, belo e efémero.
Percorres o mundo tanslucente
e cortas almas decadentes.
Às vezes quando menos esperamos
vais-te... fica o silêncio.
E nós, na nossa inocência,
esperamos que voltes,
que tornes a contar-nos histórias
e memórias de sítios distantes.
Mas não vens...
Uma estranha calma envolve-nos e sentimo-nos perdidos,
feridos por algo que nos falta!
É assim que somos...
Queixamo-nos
quando tornas a nossa vida turbulenta...
quando sopras de todas as direcções
e varres emoções!
Mas quando te vais e fica o vazio...
somos velas sem pavio!
E não sabemos o que fazer.
É esta a natureza humana. Nunca estar satisfeito!
Não querer o imprevisto mas odiar o perfeito.
Para onde caminhamos?!
Errantes vagabundos vida fora.
Não somos mais que ventos inconstantes,
tormentas surpreendentes que nos fustigam.
Quanto a mim...
basta-me que me batas no rosto
como uma lâmina....
Me roubes uma lágrima tantas vezes contida...
Me contes histórias de tempos idos...
Porque tu percorres o mundo,
invades almas,
vais ao fundo, e, voltas sempre...
como eu...
domingo, abril 02, 2006
Eu sei
Sonha, sereia pensativa
em frente ao mar.
Quantos braços queria para te abraçar...
Quantos barcos cruzarão este mar
para que sejas minha?
Olhas na distância a ânsia de um olhar.
Olha como as gotas te molham os olhos de esperar....
Quero buscar-te nas ondas
da ventania do mar alto revolto.
Quero ser o desejo que solto
quando te chamo e te quero...
Desespero nas noites que passo de mãos presas por te tocar...
Noites breves....
Noites de desespero
pelo teu olhar...
Sinto como me olhas
Sinto que me queres
Sinto que me pedes
que dê um passo!
Mas não o dou....
Em vez disso, esqueço o tal desejo de te tocar
e contento-me com o olhar...
De quem passa a vida à espera!
em frente ao mar.
Quantos braços queria para te abraçar...
Quantos barcos cruzarão este mar
para que sejas minha?
Olhas na distância a ânsia de um olhar.
Olha como as gotas te molham os olhos de esperar....
Quero buscar-te nas ondas
da ventania do mar alto revolto.
Quero ser o desejo que solto
quando te chamo e te quero...
Desespero nas noites que passo de mãos presas por te tocar...
Noites breves....
Noites de desespero
pelo teu olhar...
Sinto como me olhas
Sinto que me queres
Sinto que me pedes
que dê um passo!
Mas não o dou....
Em vez disso, esqueço o tal desejo de te tocar
e contento-me com o olhar...
De quem passa a vida à espera!
quarta-feira, março 29, 2006
TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(
E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio?
Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeiraE continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
Escrito 74 anos antes do meu amor nascer. Adoro-te filha.... este poema vai ser a minha melhor prenda de aniversário.... juntos iremos analisá-lo.... e ver que é o melhor roteiro para a vida.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(
E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio?
Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim?
Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeiraE continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928
Escrito 74 anos antes do meu amor nascer. Adoro-te filha.... este poema vai ser a minha melhor prenda de aniversário.... juntos iremos analisá-lo.... e ver que é o melhor roteiro para a vida.
quinta-feira, março 23, 2006
Primavera
| Perco-me nos teus beijos Ardo em desejo de tanto te amar.... Afogo-me em palavras a suar... Sabes-me a estevas na serra... a sopros na planura do alentejo. És quente amor.... Quando te desejo no fim da noite.... Ao início da tarde.... sente amor.... Como corro na loucura de estar contigo.... Juntos somos um só.... Nada mais existe.... Só esta vontade de estar mais e mais e mais.... Até.... o céu desabar e tudo à volta ruir.... Os teus ais abafam e persistem.... O mundo sente-se só pois nós abandoná-mo-lo E o que interessa o amanhã se hoje somos felizes? Vem comigo amor.... dá-me tudo de ti.... .... sou teu.... só teu... só.... nosso..... |
domingo, março 19, 2006
Só eu sei quem és....
| Anjo caído.... como foi que o céu te perdeu? Desceste em mim com toda a tua luz e levaste-me contigo! Não sei mais viver sem esse castanho penetrante.... Sem esse vermelho atraente.... Sem esse dourado ofuscante! Longe de ti estou perdido. Sou um tronco vazio num bosque encantado, um cavaleiro sem espada na derradeira batalha, uma ida à praia sem toalha.... quelque chose incomplète um botão de camisa, desabotoado.... |
domingo, março 12, 2006
The queen and the soldier
Return to innocence
| Return To Innocence (Curly M.C.) Love - Devotion Feeling - Emotion Don't be afraid to be weak Don't be too proud to be strong Just look into your heart my friend That will be the return to yourself The return to innocence. If you want, then start to laugh If you must, then start to cry Be yourself don't hide Just believe in destiny. Don't care what people say Just follow your own way Don't give up and use the chance To return to innocence. That's not the beginning of the end That's the return to yourself The return to innocence |
Enigma
Elegia a uma pequena borboleta
Como chegavas do casulo,
inacabada seda viva
tuas antenas fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,
como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,
minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!(...)
Pudeste a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
os espelhos que refletissem
vôo e silêncio
os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!
Cecília de Meireles
inacabada seda viva
tuas antenas fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,
como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,
minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!(...)
Pudeste a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
os espelhos que refletissem
vôo e silêncio
os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!
Cecília de Meireles
Pois é...
| Pois é... a vida às vezes é engraçada... quando menos esperamos prega-nos partidas. Talvez esteja a ser demasiado "cliché" mas é o que de facto me aconteceu. O que retiro de tudo isto é que, decididamente, não vale a pena fazer planos... querer ser o que não somos ou mesmo ansiar demasiado... quando menos esperamos há algo que nos surpreende e nos faz acreditar de novo na maravilha que é poder acordar todos os dias, ou todas as tardes, e dar graças por estarmos vivos. Viver é, por si só, um estado de alma... não um estado físico.... porque aproveitar a vida ao máximo é deixar correr os dias, sorrindo a todos e adorando cada surpresa atrás de cada esquina... Dizia-me hoje uma cliente, brasileira, extremamente simpática, embora de poucos sorrisos, "o que vale é que aqui estão todos bem dispostos"... gostei deste comentário, porque ele reflecte um pouco e, ao mesmo tempo, muito de mim! Adoro estar bem disposto, e só o consigo porque estou de bem com a vida. Porque a aceito como ela é. Apanho cada migalha de felicidade. Pois é de todas essas migalhas que se faz um sorriso interior permanente... Eu sabia que era este o meu caminho. Sabia que haveria de chegar o dia em que alguém iria reparar em mim! Por aquilo que sou... porque sei que sou muito. Porque o desejo ser! Não sei se é contigo que vou ficar, não sei se vou sequer passar mais um dia da minha vida contigo, mas uma coisa é certa, por tua causa consegui ver que ainda vale a pena ter esperança... que ainda há pessoas boas no mundo.... mais ainda... que ainda há quem queira algo mais que o vulgar modo de vida. Hoje não te quero dar poesia... apenas quero mostrar que hoje sou teu, e que amanhã também o serei se assim me quiseres! Je t'adore! |
sábado, fevereiro 25, 2006
O meu anjo
| Anjos MENSAGEIROS DE FÉ E LUZ Eles são a manifestação de Deus em nossas vidas Hariel - Anjo da Saudade Nascidos nos dias 20/01 03/04 15/06 27/08 08/11 Sua personalidade: quem nasce nestes dias é uma pessoa séria, de princípios morais rígidos e que não aceita ser a culpada de nenhum tipo de injustiça para com os outros. Como é exigente consigo mesma, acaba fazendo o mesmo com as pessoas e passa a impressão de ser um tanto grosseira, mas quem a conhece sabe que apenas luta para ver o sucesso de todos. É uma amiga fiel, em quem se pode confiar em qualquer situação. No amor: vive quase que 24 horas sua vida profissional. É tão ligada ao trabalho que, normalmente, quem se apaixona por você ou quem você conquista é um colega ou chefe de trabalho. Isso acaba fazendo sua relação caminhar bem, pois esta pessoa sabe como é e respeita seu jeito. E você, por sua vez, ensina seu parceiro a ver outras formas de viver a profissão, de tal maneira que possa curtir, ao mesmo tempo, a família e os amigos. |
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Hoje
| Hoje sou um poeta sem poesia. Deixas em mim algo de tão profundo que não posso tocá-lo... quero chegar-lhe e tomá-lo para mim, mas tudo me parece proibido. Passas o dia à distância de um olhar mas é como se caminhasse longe de tudo e de todos. Às vezes duvido que saibas... outras tenho a certeza de que te apercebes.... mas tudo continua igual... Os dois num silêncio invadido de palavras banais, conversas vulgares, lugares comuns.... Será este o meu deserto a atravessar para chegar à Terra Prometida?! Deserto... estepe... planície gelada... quero percorrê-lo para ao pé de ti chegar... És um pouco de magia... um pouco de realidade, és a pérola mais difícil e a brisa mais amena... Um pouco mais.... algo que nunca tive... o desejo do inalcansável.... a utopia! |
Regresso
Perdido numa noite de má memória, pôs-se o poeta poeta.... vagueou sem rumo durante quase duas luas mas ei-lo de volta.... Um poente feito nascente uma vez mais....
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Portugal 666
Momento solene de lucidez política
| Não sei se será do mês de Janeiro (conhecido como mês dos gatos), mas anda todo o país numa excitação tremenda. E o que mais me custa é saber que tudo isto vai acabar como uma noite de mau sexo. Cavaco vai ganhar e, tal como na dita noite de mau sexo, vamos todos, por volta da 1 da manhã de dia 23, dizer "ah... é só isto?" e a insatisfação vai continuar.... Só espero que seja uma relação, embora fugaz, segura. Pois nem quero imaginar no que poderá nascer daqui a 9 meses.... talvez o dito monstro, bastantes vezes mencionado no passado.... |
domingo, janeiro 15, 2006
sábado, janeiro 14, 2006
Relampejos de felicidade
| Cruzei o céu desta forma... como um relâmpago... Espalhei-me na vida ao comprido... Agora... que navego sem sentido, tudo me parece em vão... Tudo me parece vazio... Ao virar de uma qualquer esquina estarás... e lá me aceitarás e me farás feliz. Porque tu, que nao sei quem és... És quem Deus fez, para mim! Cruzo esquinas, vejo ruas... Desertas... como eu... |
domingo, janeiro 01, 2006
Finalmente
| Finalmente, foi finalmente.... Abalaste... Felizmente soltaste as amarras com que prendias o meu coração... O novo ano incendiou-me.... libertou-me. Agora quero sonhar de novo... Quero ser aquele traço bem alto no céu e não ser aquele que te perdeu.... Hoje mudei... vou ser feliz.... tu já não és, foste.... |
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