quinta-feira, abril 16, 2009

O rio que corre, algures....

A noite estava quente e o baile prestes a começar. Corria o ano de 1868. Lembro-me como se fosse hoje. O salão estava repleto de duques e duquesas, condes e marqueses. Os fatos de gala faziam as delicias das senhoras de bem que caíam facilmente na vulgaridade da maledicência. Quando as portas se abriram e, ladeada pela talha dourada que brilhava à luz de milhares de velas, ofuscaste tudo e todos, o meu peito, cheio do meu orgulho vão, que roçava facilmente a prepotência, estremeceu.
O cabelo castanho, cor de árvore despida pelo Outono, casava na perfeição com o brilho dos teus olhos, também eles castanhos. O sorriso tímido com que brindavas quem se cruzava com o teu olhar, a graciosa vénia que fazias, a serenidade que os teus passos transmitiam ao passares, tornaram-me um mirone de todos os gestos com que o teu corpo emoldurado no espartilho e ocultado pela saia armada, atravessava a sala boquiaberta.
Os tons do tecido, púrpura, realçavam-te a silhueta e o tom da pele. Os teus seios espartilhados, encimados por um fio singelo de prata trabalhada com uma pérola dos mares do sul dava-te um exotismo que mais nenhuma mulher possuía, por mais jóias que carregasse.
O teu brilho vinha de dentro.
E eu senti-me atraído por ele.
Dirigi-me a ti, curvei-me numa vénia sem nunca tirar os meus olhos dos teus.
A música começara entretanto, um compositor novo, de Viena, Strauss de seu nome. A música chamara-lhe Danúbio Azul, em homenagem ao rio que atravessava grande parte do império.
Transmitias-me a calma desse rio longo, que os antigos julgavam não ter princípio nem fim. Soube imediatamente, que eras a tal, eras a alma que ansiava tocar desde todas as vidas passadas, a alma que me tinha sido retirada nos princípios dos tempos.
Nunca mais nos deixámos desde aí. Os anos passam, as vidas passam, mas tu e eu, somos um. A unidade base do amor, indivisível, indestrutível, inquebrável, independente dos corpos estarem próximos ou não.
Sempre que esta música toca, as almas dançam, e longe, algures num rio que corre, canta as nossas vozes, inseparáveis até ao fim dos tempos.



The Blue Danube Op. 314 - Strauss II

7 comentários:

Sininho disse...

Gostei muito do que escreveste. A musica que escolheste é sem duvida sinonimo de bom gosto, como sempre, aliás! No que diz respeito ao texto, achei super amoroso.

Jokitas

Seline disse...

Lindo o texto. Um convite ao sonho :)
E esta valsa... que dizer? Flui como o rio de que "fala", embalando-nos.
Beijo

Sayuri disse...

Esta é a tua 'masterpiece', o teu Danubio Azul. Excelente! Um dos teus melhores, no meio de todos muito bons! Parabéns

Zabour disse...

Já naveguei no Danúbio ao som desta música, foi um momentomuito bonito, tal como este agora, mas isso tu já sabes...

Beijinhos giraço talentoso (private joke)

Eu mesma! disse...

Eu adoro o Danúbio Azul ....
acho que é uma das musicas mais bonitas que existem....

sempre que a oiço imagino-me a dançar num salão completamente vazio... apenas eu e o meu "principe".... e o meu vestido comprido lindo a roçar o chão...

:)

Lita disse...

Lindo o texto, assim como a música. Para mim, esta é A valsa.
Beijocas.

A Gata Christie disse...

Bem, eu adooooro de paixão esta música!

E o texto está muito bonito. Parece que consigo ver a cena...